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Conheça a tragetória profissional de Allyson Paolinelli

Postado em 17/06/2014 - 15:00

Ex-ministro da Agricultura do governo Geisel (1974 a 1979) e secretário de Agricultura de Minas Gerais por três vezes, Alyson Paolinelli dedica-se hoje a divulgar a tecnologia tropical gerada pelo Brasil, “uma das marcas da excelência da pesquisa agrícola brasileira”, e aprimorar, na sua própria fazenda, a integração lavoura-pecuária.

“O Brasil dispõe de tecnologia de ponta e de produtores competentes. Só falta uma perna para completar este tripé: a organização. É preciso mais participação dos produtores. Na Europa, os agricultores conseguem parar o País, como ocorreu seis anos atrás na França”, diz Paolinelli.

Em outubro próximo, nos EUA, Paolinelli receberá, juntamente com o pesquisador Edson Lobato, um dos mais importantes prêmios da agricultura mundial, The World Food Prize, concedido há 20 anos a pessoas que contribuem para o desenvolvimento e para o aumento da qualidade e da quantidade de alimentos no planeta.

Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Lavras (MG), ele se especializou nos estudos sobre o potencial da região do Cerrado para a produção agrícola. Foi um dos responsáveis pela criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo desenvolvimento do Proálcool.

A sua colaboração para o desenvolvimento da pesquisa e à ocupação agrícola dos cerrados também foi reconhecida pelos empresários do agronegócio brasileiro. No dia 1° de agosto, durante o 5° Congresso Brasileiro de Agribusiness, em São Paulo, o ex-ministro foi homenageado como a Personalidade do Agronegócio 2006. Na ocasião, ele falou à Agroanalysis.

AGROANALYSIS Depois da bonança do período 1999-2004, a agricultura brasileira mergulha novamente em uma crise. A pior dos últimos 40 anos, segundo alguns analistas do mercado. Alternar fases de vacas gordas e magras é uma característica do setor agropecuário. Mas no Brasil, a instabilidade é muito forte. Por quê?

ALYSSON PAOLINELLI Esta crise não é a primeira e nem vai ser a última. Infelizmente nós vivemos em uma senóide. Na realidade, a grande arrancada do agronegócio começou em 1972, quando o país atravessava uma fase mais estável economicamente. Não havia déficit público, e a dívida externa era pequena. Havia cerca de US$ 21 bilhões de crédito rural girando no setor naquela época. E o governo fazia políticas efetivas de crédito rural, de comercialização, garantia preços mínimos, fazia compras, montava estoques. Depois, após sete planos econômicos, a economia sofreu toda sorte de solavancos e manipulações. Hoje, o governo não tem dinheiro para apoiar a produção. A agricultura vive na incerteza, sem crédito suficiente. Desde 1990, a política de garantia de preços mínimos foi jogada para o espaço. Chegamos até a aberração de fazer uma legislação dentro da Constituinte, que obrigava o governo a implantar o seguro rural. Mas até hoje o seguro rural não emplacou, porque depende dos recursos do governo para subsidiar os custos. A agricultura brasileira fica portanto na dependência de fatores internos e externos. Internamente, há os problemas climáticos e governos que às vezes são pouco amistosos com a agricultura. No front externo, temos ainda uma forte variação dos preços internacionais.

AGROANALYSIS Não há luz no fim do túnel?

PAOLINELLI A minha expectativa é positiva. O Brasil está muito bem em tecnologia agrícola. Nós desenvolvemos em apenas 30 anos, o que o mundo desenvolveu em 4.000 anos. E fizemos melhor do que eles. Nós hoje temos uma tecnologia de agricultura tropical altamente competitiva. Com toda essa desgraça – juros altos, tributos elevados e os custos mais pesados do mundo – ainda, nós estamos apavorando os nossos concorrentes. Ou seja nós somos eficientes.

AGROANALYSIS Tecnologia de ponta é suficiente para vencer as crises?

PAOLINELLI Temos um tripé em que falta ainda uma das pernas. Temos tecnologia e conhecimento suficiente para competir com qualquer agricultura do mundo e uma classe empresarial ativa e inovadora. Mas o produtor brasileiro é competente da porteira para dentro. É preciso nos organizar melhor politicamente.

AGROANALYSIS Os produtores sabem fazer as contas? Eles têm capacidade de gestão?

PAOLINELLI É gente nova, com graduação universitária ou em vias de concluir o curso. Jovens cada vez mais capacitados. Quem faz agricultura hoje no mundo? Nos EUA, os agricultores são velhos. No Japão, são aposentados. Na Europa, são aposentados ou jovens que até as 5 da tarde trabalham em empresas urbanas e, depois, fazem bico na agricultura. Aqui no Brasil nós temos profissionais. As empresas do agronegócio são hoje dirigidas por executivos competentes. E há muitas mulheres no setor. Quando eu me formei, havia apenas uma mulher na minha turma. O interessante é que a mulher trouxe uma nova visão ao agronegócio. Ela introduziu conceitos da economia doméstica no setor rural.

AGROANALYSIS Temos tecnologia de ponta, produtores capacitados e somos altamente competitivos. O que falta?

PAOLINELLI O que outros têm, e nós não temos. Repito: falta organização. O agricultor brasileiro pensa que resolve todos os seus problemas dentro da fazenda. Mas não resolve. Estamos sendo bombardeados. É preciso mais participação do produtor. Na Europa, os agricultores conseguem parar o país, como ocorreu na França seis anos atrás. Nos EUA, o deputado que votar uma lei contrária à agricultura não consegue se reeleger. Ele fica marcado para sempre. Aqui no Brasil, o Ministério da Agricultura tem 0,3% do orçamento da União.

AGROANALYSIS Havia mais dinheiro para o Ministério da Agricultura durante a sua gestão, no governo Geisel? O que era melhor e o que era pior no seu tempo de ministro?

PAOLINELLI Muito mais do que hoje. Eu não lembro quanto exatamente, mas sei que nós tínhamos mais recursos. O Brasil não era um país endividado. Além disto, houve um trabalho estratégico para desenvolver o setor agrícola. Gerar tecnologia própria e transferi-la ao produtor.

AGROANALYSIS O senhor é um grande divulgador da chamada tecnologia tropical brasileira, principalmente da integração lavoura-pecuária. Quais são as vantagens deste sistema?

PAOLINELLI Trata-se da maior inovação que nós tivemos no século XX na agricultura tropical do Brasil. A integração lavoura-pecuária é um instrumento capaz de revolucionar a agricultura brasileira e aumentar ainda mais a competitividade do agronegócio nacional. Ela ainda está dando os seus passos iniciais, e deveria ter mais apoio das políticas públicas. Tenho certeza de que esta inovação não vai ficar na prateleira. Segundo dados da Embrapa, o Brasil tem 40 milhões de hectares de pastagens degradadas. Em São Paulo, há mais de 1,5 milhão de hectares de pastagens degradadas. Como resolver isto? Neste aperto financeiro que o produtor vive hoje, ele não tem condições de repor o que solo precisa. Quem vendeu boi três anos atrás a R$ 65 e consegue hoje apenas R$ 44 não tem recursos para recuperar o solo. A extração de nutrientes pelas culturas é grande. O milho, com 6.000 quilos por hectare, tira da terra 136 quilos/hectare de nitrogênio, 28 de fósforo e 39 de potássio. A pastagem, se não for renovada, chega a tirar 451 quilos de nitrogênio, 45 de fósforo e até 600 quilos de potássio por ano. Desenvolvida pela Embrapa, a integração lavoura-pecuária pode mudar este cenário. Ela consiste na diversificação e na rotação das atividades agrícola e pecuária dentro da mesma propriedade. Por meio desta tecnologia, a fertilidade do solo é corrigida com os cultivos anuais. Consegue-se recuperar e reformar as pastagens degradadas, evitar a erosão e quebrar o ciclo de pragas e doenças da monocultura. O objetivo é produzir pastos, forragens e grãos para alimentação animal na estação da seca. Com essa ferramenta, podemos diminuir o uso de insumos, aumentar a rentabilidade do produtor e reduzir os custos das atividades agrícolas e da pecuária. Mais ainda: valoriza a sua propriedade.

AGROANALYSIS Esta tecnologia só traz vantagens ao produtor rural?

PAOLINELLI Muita gente me pergunta: é milagre ou mentira? Quando você conjuga as duas atividades, tem uma equação simbiótica dos dois processos. Com a integração, a pecuária ajuda a agricultura e vise-versa. O rebanho bovino aumenta. Mais carne, mais leite, mais produtividade. Aumenta também a produção de grãos, à medida que o solo melhora. Além disso, você tem menos problemas de erosão e melhora a qualidade da água.

Agroanalysis Recuperar pastos degradados também evita o desmatamento para ampliar as áreas de plantio?

Paolinelli Esta é uma questão polêmica para o Brasil e acaba denegrindo a imagem do País lá fora. Quando você recupera uma pastagem degradada a custo baixo, não precisa desmatar para abrir áreas. Você não vai forçar os chamados biomas frágeis. Também consegue diminuir o uso de agrotóxicos. Quem usa este sistema, emprega mais mão-de-obra. A integração está recuperando algumas áreas do Brasil antes inviáveis à agricultura, como o caso do arenito de Caiuá, nas regiões do sul de Mato Grosso, parte de São Paulo e no noroeste do Paraná. Essas áreas estão sendo usadas hoje para o plantio de soja. Por meio da integração lavoura-pecuária, alguns produtores estão conseguindo tirar entre 60 e 70 sacos de soja por hectare e entre 14 e 18 arrobas por hectare no restante do ano. É só fazer as contas para a gente perceber que esta tecnologia é realmente inovadora e representa uma salvação para o Brasil.

AGROANALYSIS Vira e mexe, a imprensa estrangeira acusa os agricultores brasileiros de aumentar a produção agrícola à custa da destruição de matas nativas e florestas.

PAOLINELLI Você tem no Brasil hoje dois tipos de instituições: as ONGS e as INGs. As ONGs, que são organizações de fato, analisam o que está ocorrendo, levam aos seus conselhos, tomam decisões e agem. Infelizmente, você tem outras entidades que podemos chamar de INGs (indivíduo não-governamental), que fala as maiores asneiras, vai lá fora e detona a imagem do país. As INGs dizem que o Brasil cresceu a sua produção agrícola à custa dos recursos naturais. É a maior mentira. A agricultura tropical do Brasil é respeitada justamente por ser conservacionista. Aliás, ela preserva bem mais o ambiente do que a agricultura tradicional praticada na Europa e nos EUA. A equação do carbono no Brasil é negativa. Nós absorvemos carbono, principalmente com técnicas como o plantio direto e a integração entre lavoura e pecuária.