Perfil

A A

Entrevista com José Marcos, presidente da Sociedade Mineira de Agricultura

Postado em 05/02/2015 - 23:25

A SMA é uma entidade com 105 anos de existência. No passado, teve grande participação nas decisões do Estado sobre os assuntos do campo. Hoje como é a sua atuação?

Todas as grandes conquistas da agropecuária em Minas Gerais nasceram na SMA ou tiveram a efetiva participação de nossa entidade. A Sociedade Mineira de Agricultura perdeu força com a falta de recursos para grandes ações. Hoje as únicas que recebem verba para se manter são as entidades sindicais, que recebem os Impostos Sindicais que nós pagamos.

Estamos em contato com as grandes entidades da agropecuária brasileira, fora do esquema sindical, para fazermos uma atuação em conjunto, buscando atender as necessidades do setor.

A SMA elaborou um planejamento para que passe a funcionar como um fórum permanente, por meio do qual os diversos setores ligados aos interesses da agropecuária poderão debater e apresentar sugestões para políticas públicas em Minas Gerais.

Elaboramos uma Agenda para a Agropecuária Mineira 2015/2050. Está disponível em nosso site através do link, http://www.sma.org.br/agenda.

2 – Todas as previsões indicam que enfrentaremos um ano muito difícil na economia brasileira. Como o setor do Agronegócio deverá enfrentar este período?

O agronegócio é o motor do PIB brasileiro. Tem crescido em taxas sempre superiores à do restante dos setores econômicos e tem condições de progredir ainda mais. Porém, não recebe do governo a atenção de estrela da nossa economia como deveria.

Sem duvida será um ano difícil, mas com a capacidade dos produtores brasileiros, tenho convicção que ao final do ano teremos o Agro avançando, crescendo e contribuindo sensivelmente para o PIB brasileiro.

3 – Estamos assistindo a uma grande crise na gestão das águas. Além das questões naturais, quais são as causas desta crise?

Esta é uma tragédia anunciada. Há anos que revistas e jornais de todo o mundo falam incessantemente que a água deve ser melhor gerida. Claro que não podemos ignorar os problemas de falta de chuvas, atípico nos últimos meses, porém, se o governo brasileiro tivesse se adiantado, com estratégias avançadas tais como reaproveitamento de água, aperfeiçoamento da engenharia para irrigação, evitando o desperdício, interligação entre diferentes bacias, dentre outras ações, hoje estaríamos tirando de letra essa seca.

Entretanto, hoje cerca de 60% da água captada para irrigação fica desperdiçada pelo caminho; utilizamos água pura para lavarmos carros e calçadas; nossas descargas gastam três vezes mais que as mais novas, fabricadas a partir de 2000. Então, as causas são várias e cumulativas.

Temos infelizmente a cultura no país de combater um problema, e não de evitarmos a ocorrência do mesmo.

O Brasil não pode parar de crescer, mas tem de fazê-lo de forma sustentável. Tanto o desenvolvimento não pode prejudicar o meio ambiente, quanto as medidas de preservação não podem prejudicar o crescimento.

Assim, tem de haver mais diálogo entre governo e forças produtivas, de tal forma que a engrenagem passe a rodar de forma a permitir o desenvolvimento e ao mesmo tempo garantir a preservação ambiental.

4 – O país tem um dos mais altos custos de logística agrícola do mundo. Como o governo deveria enfrentar essa situação?

A agropecuária brasileira da porteira para dentro é uma das mais produtivas do mundo. O mesmo não acontece da porteira para fora. Nós precisamos de transportes bons e mais baratos. O Brasil é um país rodoviário e com estradas mal cuidadas. Nos Estados Unidos se gasta cerca de 8% do PIB agrícola durante os transportes até os portos. No Brasil, gastamos o dobro. Já os investimentos em infraestrutura por aqui não chegam a 1/3 dos números Norte Americanos. Precisamos de estradas de primeiro mundo, além de expandirmos o transporte ferroviário e fluvial. 

Nossa malha ferroviária é mínima, e para um país com dimensões continentais, deveríamos priorizar sempre esse meio de transporte, mais adequado a grandes volumes e mais barato.

Por outro lado nossos portos também carecem de melhorias. Não só a expansão física, como a qualificação profissional. Não podemos aceitar que caminhões carregados fiquem dias em filas para conseguirem entregar sua cargas, muitas vezes perecíveis.

5 – A senadora Kátia Abreu acaba de assumir o Ministério da Agricultura. Quais as expectativas para a sua gestão?

Foi um grande avanço deste governo a escolha da presidente da Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária, CNA, para ser a nova ministra da Agricultura. Porém, será preciso que ela tenha força junto a outros ministérios, por que diversas decisões sobre o setor ocorrem em ministérios como o dos Transportes; Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Desenvolvimento Agrário; Meio Ambiente, Minas e Energias e da Fazenda, por exemplo. Acredito que deva ser dada ênfase na melhoria da infraestrutura e formação de profissionais.

Além disso, precisamos de mais agilidade na burocracia para liberação de requisições feitas pelos agricultores e pecuaristas. Muitas vezes uma licença demora mais de um ano para ser dada, atrasando a produção e causando prejuízos financeiros a todos.